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Roberto Rodrigues Recebe Prêmio
Professor Emèrito

Ao refletir longamente sobre o sentido da vida, Roberto Rodrigues se deu conta que era necessário inverter a questão. Em vez de pensar em um sentido para a existência, era fundamental dotar a vida de propósito. “Desde muito jovem tinha uma dúvida enorme sobre o sentido da vida. Dúvida, aliás, que angustia boa parte da humanidade. Estudei um pouco o assunto e cheguei à conclusão que a resposta não existia.” Contudo, na busca por um propósito, escolheu percorrer o caminho que o levasse à construção de um mundo melhor: o da educação. “Se ensinar tudo o que sei a você, nós dois ficaremos melhores. Da mesma forma, acredito que o mundo seria melhor se as pessoas compartilhassem mais conhecimento.”

Nascido em Cordeirópolis, na região de Piracicaba, em 12 de agosto de 1942, Roberto Rodrigues, à exemplo de seu pai, de vários tios e de seus dois filhos, estudou agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq). Começou a lecionar em 1967, na recém-criada Escola de Economia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em Jaboticabal. “Um dia o Jesus Marden, o primeiro diretor da universidade, ficou sabendo que eu morava em uma fazenda ali perto e me perguntou se podia dar aulas de graça, pois a instituição estava sendo montada e ainda não dispunha de recursos.” Lecionou a disciplina Agricultura Geral durante dois anos sem receber remuneração. Quando a universidade estava apta a contratar professores, deixou as salas de aula, mas a vontade de ensinar permaneceu.

Em 1973, após assumir a direção da Coplana (Cooperativa de Plantadores de Cana da Zona de Guariba), fundada por seu pai, Antonio José Rodrigues Filho, foi convidado pelo departamento de Economia Rural da Unesp para ensinar Cooperativismo. Por um tempo, conciliou a vida de agricultor, os compromissos na cooperativa e o magistério. “Como era agricultor, conhecia bem as questões da vida real, do dia a dia. Meu conhecimento era prático, então minhas aulas também eram.”

Há 20 anos, após se recuperar de uma doença, decidiu doar a fazenda aos filhos. “Quando somos jovens temos a percepção que as coisas são eternas, mas, em algum momento algo nos mostra o contrário.”

Vida política.

Apesar da sólida participação em diversas associações em prol do desenvolvimento do agronegócio e do cooperativismo brasileiros, costuma dizer que a política surgiu em sua vida de forma inesperada, uma consequência do trabalho realizado. Entre 1995 e 1997, como secretário de Agricultura do governo paulista, foi um dos responsáveis pela criação da Agrishow – Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação, em Ribeirão Preto.

Em 2002, antes das eleições presidenciais, Rodrigues, então presidente da Abag – Associação Brasileira do Agronegócio, foi convidado para uma reunião com o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. No encontro, Lula quis saber os problemas de cada setor para montar um plano de governo com ações baseadas nas carências de cada área. “Nesse momento, pedi a palavra e disse para começar com a agricultura. Expliquei a necessidade de dar atenção ao setor.”

Passada a eleição, presidente eleito, Lula o chamou novamente para uma conversa em Brasília. “Ao ser convidado para ser ministro retruquei dizendo que tinha votado no José Serra. Ele me respondeu que a eleição já tinha passado. Aceitei o convite.” Como ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, de 2003 a 2006, Rodrigues reestruturou a instituição, promoveu a implantação de leis modernas nas áreas de biotecnologia, orgânicos, seguro rural, além de dar visibilidade às bases da agricultura moderna.

Cooperativismo.

O orgulho que sente do agronegócio brasileiro e seus números superlativos estende-se também aos pequenos produtores. Aponta o cooperativismo como a saída para a sobrevivência da agricultura em pequena escala em uma economia com concorrência global.

Um dos maiores especialistas na área, Rodrigues foi presidente da OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras, vice-presidente da OCA – Organização das Cooperativas da América, presidente da Organização Internacional de Cooperativas Agrícolas da Aliança Cooperativa Internacional (ACI) e presidente do Conselho Continental para as Américas da ACI. Desde de 2012 é embaixador especial da FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.

Acredita que o movimento, com mais de 1 bilhão de pessoas diretamente cooperadas, é um instrumento de defesa da paz e explica porque: “Com a Revolução Industrial, houve uma exclusão brutal. Os trabalhadores que se viram sem emprego, uniram-se em cooperativas. A doutrina combate a exclusão social.” Em 2015, o Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito (WOCCU - World Council of Credit Union) o premiou com o Distinguished Service Award, a mais alta comenda concedida pelo movimento das cooperativas de crédito.

Cátedra Luiz de Queiroz.

Dentre as tantas honrarias que já recebeu, é Doutor Honoris Causa pela Unesp, uma das que lhe trazem mais orgulho foi ter recebido a medalha Luiz de Queiroz, na mesma escola que formou seu pai, tios e filhos. Em tantos anos como aluno e professor, a relação íntima e afetuosa com a Esalq foi retribuída generosamente: foi escolhido paraninfo de 12 turmas. “Na formatura de meu filho, que tive a alegria de ser paraninfo, comemorava 25 anos de formado”.

As homenagens e demonstrações de reconhecimento, continuam a surpreendê-lo: “Ensino por vocação e prazer, por isso me sinto muito honrado e considero o prêmio Professor Emérito, concedido pelo CIEE, o ponto máximo da minha carreira acadêmica”.

Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV-EESP, há poucos dias, Rodrigues foi empossado como o primeiro titular da nova cátedra Luiz de Queiroz de Sistemas Agropecuários Integrados

A nova cátedra nasce para fomentar o debate sobre temas direta e indiretamente relacionados ao agronegócio brasileiro e estará aberta à participação de professores e estudantes de graduação e pós-graduação da escola. “Atravessamos um período histórico marcado pela ausência de líderes e de projetos para o país, não apenas no Brasil, mas no mundo também. Uma consequência direta desse vácuo de liderança seria o recrudescimento do terrorismo, as instabilidades políticas que forçam a migração de milhões de pessoas, desalojadas para fugir da fome e da guerra”. Neste ponto, ele acredita, o país precisa assumir o papel a que está destinado. “O Brasil tem um papel preponderante na alimentação planetária. Podemos ter uma participação central na alimentação e na paz do mundo”, diz. “Com a cátedra, minha ideia é reunir especialistas de várias áreas e montar um plano de governo para oferecer a todos os candidatos à Presidência. Será uma plataforma para o Brasil, não só para o agro, com atenção ao pequeno produtor e a sustentabilidade. Certamente seria uma mudança de paradigma. Estou com esse sonho maluco.”

Fonte: Estadão